XANGRILÁ







Vinte e nove anos depois eu tive a oportunidade de retornar ao lugar que desbravei com alegria e com amigos em Colônia bem depois de Barragem e Parelheiros. 



Voltar a andar nos trilhos dos trens de carga ainda ativos foi uma maravilha! Saudosa galera dos amigos que o tempo e o destino nos separaram. Cumpríamos religiosamente a cada quinze dias a façanha de acampar na serra do mar, na beira de cachoeiras fantásticas! Embora eu tenha percebido que a bagagem que eu levava na época era mais leve do que a barriga que levo hoje... Quase trinta quilos a mais do meu peso de garoto, para ser mais preciso vinte e nove quilos, vinte e nove anos depois.
Deixemos as coincidências de lado e vamos à história de hoje. Descemos eu e um amigo dois remanescentes daquela turma aventureira, aos tropeços, trancos e barrancos, íamos tirando as pedras do lugar a cada dez metros, os nossos pés já não nos obedeciam como antes!



 Encontramos um trem parado e subimos e tiramos fotos como fazíamos naquela época. Andamos mais uns quatro quilômetros e resolvemos procurar a cachoeira como quem procurava Xangrilá, até que resolvemos desistir e voltar a civilização! Ideia maravilhosa eu pensei, já que estava vinte quilos a mais que meu amigo e antigo colega de acampamentos e trilhas terrivelmente inacabáveis.
Tive uma ideia! E logo subimos em um dos oitenta vagões que passava por nós, andamos bons quilômetros de carona quando resolvemos pular do trem... O meu amigo que é engenheiro, professor de física, saltou primeiro, e ficou estatelada nas pedras feita uma panqueca, vinte e nove anos depois... Jamais isso teria acontecido vinte e nove anos antes! Ele era um exímio saltador de trens em movimento! A única coisa que eu sei é que ri tanto que tive medo de saltar e acontecer a mesma coisa! Mas enfim saltei! Dei uns passos como antes fazia na direção em que o trem corria e parei de costas para o meu amigo uns trezentos metros depois, engoli o choro, mas ria silenciosamente com a imagem dele no chão, mãos na linha da cintura, deitado de bruços, parecendo uma manequim esperando ser vestido de coragem para mostrar sua cara preta na minha direção, levantou lentamente ele sentou nos trilhos do lado, eu como melhor amigo engoli o choro, mas sequei por varias vezes duas lagrimas que teimavam descer dos meus olhos a cada dois passos que eu dava, aproveitei a careta que fazia para evitar o sol e ria baixinho até findar os trezentos metros de pura e profana gargalhada silenciosa... Sentei ao lado dele e com pouquíssimas palavras disse que estava sangrando sua boca, perguntei se todos os dentes estavam no lugar, ele me respondeu: - acho que sim!
Olhei pra ele bem sério, depois para o meio de minhas pernas abertas e emiti uma gargalhada silenciosa mais uma vez! Limpei os olhos de novo, dei lhe uma tapinha nas costas e lhe disse: de onde você pegou esse tem mais! Vamos sair daqui. Uns quilômetros à frente, encontramos uma ponte com um rio de águas cristalinas e resolvemos investigar, já na descida do pico meu amigo resolveu que eu estava triste e quis me dar uma ajuda rolando pirambeira a baixo por mais duas vezes, eu todo solicito lhe perguntei: Quer uma ajuda? Ele olhou e me disse: Não rindo já está de bom tamanho! Consenti com a cabeça numa hipocrisia imensa, pois já estava  me acabando por dentro. 


Voltamos e na subida em direção ao carro passou outro trem de carga com mais uns oitenta vagões, olhei pra ele e me acenou com a cabeça negativamente, olhei de novo e dessa vez insisti e lhe disse que só desceríamos se o trem parasse, sendo assim voltamos uns dois quilômetros   mais uma vez de carona só que dessa vez ele conseguiu saltar e fomos embora sorrindo e gargalhando dos vinte e nove anos  de saudades que acabávamos de matar, tudo bem que o destino quis dar uma ajuda sorteando o meu amigo com três memoráveis tombos, para jamais nos esquecermos









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